Lima Barreto, o meu herói literário

Lima Barreto, o meu herói literário

Estamos na semana em que a República foi proclamada e a Consciência Negra deveria ser celebrada, mesmo que não tenhamos motivos para comemorar nem um nem outro.

Tinha várias postagens que ficarão pra depois, Lima Barreto é mais importante pra mim.

Por quê? Por ele ser um escritor que merece todas as honrarias.

Retratou não apenas seu tempo, porque as desigualdades que permanecem.

A exclusão, o preconceito, a violência causada pela cor de sua pele, tudo continua.

Em 2022 (dia 1º de novembro) fará 100 anos da morte deste jornalista e escritor afrodescendente.

Publicou romances, sátiras, contos, crônicas e uma vasta obra jornalística em periódicos, revistas populares ilustradas e jornais anarquistas do início do século XX.

Nasceu no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1881, sete anos antes da abolição da escravidão.

Negro e de origem pobre, começou a sua educação em casa, com a mãe, professora.

Era bisneto apenas de uma escrava traficada da África.

Não por suas próprias origens e nem pelos dissabores de viver sem mãe, que morreu quando ainda era menino.

Também teve de parar os estudos para ajudar a pagar as contas.

Ou pelo pai que tinha problemas psicológicos.

Talvez por tudo isso e muito mais, Lima Barreto produzia crônicas de costumes do Rio de Janeiro.

Retratou com fidelidade o preconceito racial e as injustiças sociais do Brasil.

Sua voz crítica ainda ecoa na nossa República, que não deixou de ser uma “Bruzundanga”.

Essa, aliás, é uma obra que destaco em meio a tantos alertas de Lima Barreto.

O “bota abaixo” e o “higienismo”

No Rio de Janeiro do início da República um dos fatos mais marcantes foi o fim da escravidão.

E como um problema que era, destacamos a falta eterna de capacidade de resolver qualquer questão.

Os negros foram jogados em um novo “navio negreiro”, sem poder voltar para a terra de onde foram arrancados.

Tampouco podiam viver na terra que construíram com seu sangue, porque na mente da maioria, eles ainda eram coisas.

Moravam onde podiam, e não apenas no Rio. Cortiços insalubres se multiplicavam.

Assim como os sem teto de hoje, sinônimos de atraso diante de uma modernidade que só alguns têm direito.

Nos tempos em que Lima Barreto começou a escrever suas obras, um serviço higienista executado pelo prefeito Pereira Passos deixou uma dívida de 8 milhões de libras esterlinas e colocou abaixo as velhas casas da capital federal.

Lima criou uma fictícia República dos Estados Unidos da Bruzundanga e disse que de ”uma hora para a outra, a antiga cidade desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro. Havia mesmo na coisa muito de cenografia”.

Para ele a capital se dividiu entre uma parte europeia e outra indígena.

Nesta porção da cidade, viviam os negros, os nordestinos, os imigrantes latinos, enfim, gente pobre de todo o país.

A questão era esconder debaixo do tapete o desleixo dos privilegiados que nunca pensam que estão roubando mais e mais dos despossuídos.

O dano colateral da expulsão da classe trabalhadora de suas habitações foi a ocupação dos morros, mais próximos dos seus locais de labuta.

Assim as favelas passaram a fazer parte da paisagem urbana carioca, e só cresceram a cada exclusão.

Assim como os sem teto do centro de São Paulo e tantas outras cidades.

O que diria Lima Barreto vendo este país em chagas?

Vendo cada vez mais desigualdades? Pessoas catando lixo para comer?

Talvez tivesse vergonha, como eu tenho.

Não vergonha de que o “mundo” veja como somos atrasados.

Mas vergonha de ainda termos os mesmos problemas do início da República e piorados.

Para Lima, assim como para mim, não existe progresso se não houver inclusão e respeito.

As demolições e desapropriações criaram os desabrigados sem condições de arcar com os impostos e aluguéis.

Mais uma vez quem produzia não tinha o direito de adquirir o produto.

Esta é a vergonha meu povo.

Não ter nem o direito de se sustentar.

Acho que Lima Barreto diria agora que cansamos de apenas “sobreviver”, e que queremos “viver”.

A crise de moradia de 1905 só piorou.

Juntou-se a isso uma crise humanitária sem precedentes.

Fome, desemprego, doença, morte. Apocalipse?

Todos os dias é o apocalipse pra alguém.

Eu não chego aos pés de Lima Barreto, que nunca entrou na Academia de Letras.

Era anárquico demais para chá com fardão.

Peço neste mês de Consciência Negra que não apenas se lembrem de Lima Barreto.

Transgridam esse governo genocida e conheçam sua obra.

Talvez a gente para de tentar higienizar e comece a resolver problemas.

 

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