Memórias do olhar ao paladar

Memórias do olhar ao paladar

Quem me acompanha aqui no blog sabe muitas coisas sobre mim.
Coisas que vão além do fato de eu ter mais do que 39 anos.
Além de me indignar com com muitas coisas.
Sabem que eu gosto de culinária e de plantas, natureza etc.
Entre os assuntos, eu sempre digo que sou uma caminhante.
E não apenas por motivos de saúde, mas também por gostar de ver paisagens e pessoas.

Isso só é plenamente possível quando se anda por um lugar.

Hoje, por exemplo, vou lembrar dos tempos em que era adolescente e recebia salário semanalmente.
Então chegava o sábado e eu ia com uma amiga para o centro velho de São Paulo, bater perna.
Quase sempre a rota passava pelo Museu do Disco, Sebo do Messias ou outro; apreciar a arquitetura da cidade e, comer coisas que não eram tão fáceis de encontrar.
Eram meados dos anos 70 para o final, o Mappin ainda existia.
Assim como o Mappin, outras lojas que hoje nem são mais lembrança. Ah as vitrines da Piter…
O passeio sempre começava no Parque D. Pedro, onde paravam os ônibus que vinham de São Bernardo.
E antes de tudo, a gente escolhia por qual rua ia “subir”: General Carneiro ou Porto Geral.
Naqueles idos dos 70 eu só subia a General quando queria comprar alguma coisa dos marreteiros.

E havia muitos, mesmo que o pessoal dos grupos de memórias neguem.

Quase sempre chegávamos ao Largo São Bento, fazíamos uma prece na igreja e decidíamos em qual direção iríamos.
Mas o mais comum era pegarmos a Libero Badaró em direção à Praça do Patriarca.
Sempre fazíamos um “pit stop” no Bar Lírico para tomar um café coado à moda antiga.
Tão bom que o aroma nos alcançava bem antes de chegarmos ao local.
E quando a gente tinha um pouquinho mais de dinheiro sobrando, comíamos um sanduíche de queijo do reino Palmyra.
Aqui no ABC, nunca mais vi. Só no Mercadão do centro.
Então saíamos andando aonde as pernas nos levassem. Saudades do Lírico.

Hoje a Líbero Badaró está tão desfigurada que nem sei o que virou.

Talvez um dos estacionamentos totalmente fora do padrão que há em todas as partes do centro de São Paulo.
A única referência que continua dessa parte é a Casa Godinho, que resiste em uma cidade que se perdeu.
As andanças continuavam ou pela Rua Direita, sentido Sé, ou pelo Viaduto do Chá, sentido Praça da República.
E além de olharmos todas as vitrines, de cima a baixo, admirávamos os prédios antigos da região.
Quando dava fome, comíamos o cachorro quente das Lojas Americanas, imbatível até hoje, ou o club sanduíche.
Depois andávamos até cansar e parávamos para almoçar ou tomar suco.
São memórias de tempos mais simples, nos quais andava à toa pelo centro, sem medo de ser feliz.
Hoje me entristeço.

Mesmo indo sempre que posso bordejar pelas vias, faço outros percursos.

Eu vejo o quanto tudo mudou, e não foi para melhor.
O Lírico não existe mais, nem a lanchonete das Americanas ou as lojas aonde eu ia.
Mas o que me trouxe à memória essas andanças todas foi uma notícia que li um dia desses…
O restaurante La Farinata, que serviu muitos almoços para mim e essa amiga, fechou suas portas para sempre.
Mesmo sabendo que há muitas coisas novas, e casas de grandes chefs pelo centro, sinto falta das casas tradicionais.
Restaurantes onde você comia um canelone de respeito sem ter que vender um rim para pagar.
Ou simplesmente começar seu dia com um café coado e um sanduíche de queijo.
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