O Almirante Negro ainda assombra a marinha brasileira


“Há muito tempo nas águas da Guanabara, o Dragão do Mar reapareceu” (Mestre-Sala dos Mares – João Bosco e Aldir Blanc)

115 anos depois da Revolta da Chibata, João Cândido Felisberto ainda é um fantasma que assombra a marinha brasileira.

Na canção ele é como uma reencarnação do Dragão do Mar, outro marinheiro valente, que também ele se revoltou contra uma injustiça que ameaçava humanos por sua raça.

Mas falarei do Dragão do Mar, Francisco José do Nascimento, em outro texto, já que ele merece também sua própria representação.

Porque estou falando desses personagens? Talvez seja porque minha função seja esta, a de lembrar esses personagens heroicos, que não estão nos livros de história, mas que deveriam.

Afinal, porque sabemos mais dos presidentes estadunidenses do que dos verdadeiros heróis da nação?

Já falei aqui de Luís Gama (Dr. Gama), Tebas: o arquiteto escravizado; e agora chegou a vez de João Cândido.

Filho de ex-escravos, João Cândido Felisberto nasceu em 24 de junho de 1880, na cidade de Encruzilhada do Sul (RS), e morreu em São João de Meriti (RJ), em 06 de dezembro de 1969.

Com apenas 13 anos, João Cândido participou da Revolução Federalista e em agosto do ano seguinte estava alistado no Arsenal de Guerra do Exército Nacional, iniciando precocemente seu envolvimento com as atividades militares.

República e falsa abolição não mudam nada

Em 1895, ingressa na Escola de Aprendizes Marinheiros em Porto Alegre (RS) e no mesmo ano passa a compor a 16ª Companhia da Marinha do Brasil, já no Rio de Janeiro.

Militar, com qualidades de liderança, foi elogiado e promovido como marinheiro de 1º classe, logo depois foi rebaixado por participar de brigas, comuns entre a marujada.

A Marinha, nesse período, era a força militar mais oligárquica e reacionária, filhos de latifundiários do interior do país e de famílias ricas do Rio de Janeiro, então capital federal, integravam o alto oficialato e o comando naval, com práticas e regimentos funcionais ainda herdados da Armada Imperial.

Em contraste, a base da força era integrada por uma maioria negra e cabocla, muitos ex-escravos, e pessoas oriundas das camadas mais pobres da população brasileira.

E foi nos porões e nos conveses das embarcações militares, transformadas em novos navios negreiros, que João Cândido forjou a sua personalidade e a liderança diante das adversidades e injustiças.

A Marinha brasileira era dura, com oficiais autoritários e sádicos, nada muito diferente do que vemos agora nas chamadas forças de segurança.

A chibata, usada para punir os escravos, era também o instrumento para punir os marujos, o regimento disciplinar era severo e a menor infração poderia custar a vida do embarcado.

Humilhações diversas, racismo institucionalizado, a péssima alimentação e o trabalho penoso tornavam a vida do marinheiro infernal nos quartéis e navios.

Além disso, os soldos insignificantes e proibições severas para os marinheiros quando não embarcados: proibidos de casar, estudar e de exercer atividades associativas e políticas ferviam entre os marinheiros como um caldeirão de revolta.

 

A revolta da Chibata

A resposta dos marinheiros, liderados por João Cândido, contra os maus tratos, castigos físicos medievais e os abusos dos oficiais, ocorreu na última semana do mês de novembro de 1910, por cinco dias, entre 22 a 27, quando explodiu a insurgência no interior dos navios.

Os marujos tomaram quatro navios militares, os mais modernos e bem equipados da época, ancorados na Baía da Guanabara.

Manobrando as embarcações e apontando os canhões em direção ao centro da capital do país, durante a ocupação dos navios realizaram alguns disparos de advertência.

Na Capital Federal houve pânico e desespero, especialmente entre as classes dominantes e no governo do presidente Hermes da Fonseca, que recebeu uma mensagem telegrafada por João Cândido exigindo o fim da chibata e dos códigos disciplinares autocráticos e degradantes.

Nas imagens, os marinheiros revoltosos exibiam trapos com as inscrições: “Viva a liberdade e abaixo a chibata”.

O caso da Revolta da Chibata lembra um episódio histórico de motim naval ocorrido cinco anos antes na Rússia, que ficou conhecido como a “Revolta do Encouraçado Potemkin”, eternizada na obra do cineasta Sergei Eisenstein.

O governo de Hermes da Fonseca aceitou parcialmente as reivindicações e a prática odiosa das chibatadas foi proscrita do rol de punições.

Porém a anistia aos 3 mil marinheiros amotinados durou pouco e o alto comando da Marinha, que se considerava humilhado pelos revoltosos, preparou um ato inominável de revanchismo e covardia.

A Marinha expulsou os revoltosos, desonrou a conduta militar dos marujos, não pagou os seus soldos, conforme o acordo, e aprisionou João Cândido e outras 20 lideranças do movimento na Ilha das Cobras, na Baía de Guanabara.

Tentaram matar João Cândido de desidratação nas celas da Ilha das Cobras, onde a maioria dos presos sucumbiu, enquanto centenas de homens foram enviados para trabalhos forçados no Acre, a chamada “Sibéria Brasileira”.

A maioria morreu, João Cândido sobreviveu, após anos de prisão, João e outros nove companheiros de revolta foram absolvidos pelo Tribunal de Guerra, em 1912.

O Almirante negro caiu no esquecimento, ganhando o pão de cada dia vendendo peixe fresco nas imediações da Praça XV, no centro do Rio de Janeiro.


O “Almirante Negro” reaparece em março de 1964

 

A figura envelhecida, com a voz de comando mais fraca, ainda ostentava carisma e brilho nos olhos quando falava da Revolta de 1910.

O Almirante empolgou os marinheiros liderados pela Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, em uma nova revolta.

Em março de 1964, o país governado pelo presidente João Goulart enfrentava forte oposição golpista de direita e do alto comando das Forças Armadas, principalmente do Exército.

Nesse contexto, de radicalização política, explode a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais, entre os dias 25 e 27 de março de 1964, como um fio de continuidade histórica com a Revolta da Chibata de 1910, que reivindicava mudanças na Marinha.

Entre as mudanças pedidas estavam: direito de associação, melhores salários, direito ao voto e ao casamento, melhora da alimentação nos navios e quartéis e o fim das discriminações e arbitrariedades dos oficiais.

A revolta dos marinheiros de 1964 levantava praticamente as mesmas reivindicações de 1910, sem as chibatas, abolidas pelo movimento liderado por João Cândido.

Por isso, a sua presença, como convidado de honra, na festa de aniversário da Associação dos Marinheiros, no dia 25 de março, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro.

O movimento gerou uma crise política, que enfraqueceu o governo de Jango Goulart, e forneceu uma narrativa para os militares golpistas sobre a quebra da hierarquia militar e a escalada da esquerdização entre os praças, cabos e sargentos nas Forças Armadas.

Cinco semanas depois, em 1º de abril, o governo democrático de Jango era derrubado por um golpe militar, que promoveu um amplo expurgo no conjunto das forças militares.

 

A morte chega para todos e ainda há açoite para o bravo Almirante

 

João Cândido viveu seus últimos dias em São João do Meriti (RJ), onde morreu de câncer, aos 89 anos de idade.

Hoje, o Almirante Negro é citado por muitos como um herói, lembrado em monumentos e obras artísticas, mas não foi plenamente reabilitado.

Em 2008, uma lei concedeu anistia a ele e a outros marinheiros, mas não o reincorporou à Marinha, luta mantida até hoje por seus familiares.

Um projeto de Lei que  tramita na Comissão de Cultura, da Câmara dos Deputados, provocou polêmica em torno do legado de João Cândido e da Revolta da Chibata.

O comandante da Marinha, Marcos Olsen, em carta oficial, criticou raivosamente a proposta de inclusão do “Almirante Negro” no livro de aço dos Heróis e Heroínas da Pátria, uma homenagem prestada aos brasileiros que deram contribuições importantes ao país.

A honraria, criada em 1992, já homenageou figuras históricas e relevantes para a construção da identidade nacional como Anita Garibaldi, Chico Mendes, Machado de Assis, Santos Dumont e Tiradentes.

A inclusão do nome no Livro de Aço de Heróis e Heroínas da Pátria depende de aprovação do Congresso Nacional.

Ou seja, 115 anos após a revolta da Chibata, a Marinha prossegue com os ataques ao herói do povo brasileiro, cantado em prosa e verso nas ruas, praças e no Carnaval.

João Cândido é mais um herói popular esquecido dos livros e que tento resgatar aqui.

Precisamos estudar melhor os nossos verdadeiros heróis!

“Salve! O Navegante negro, que tem por monumento, as pedras pisadas do cais”.


Uma resposta para “O Almirante Negro ainda assombra a marinha brasileira”

  1. As nossas lutas permanecem, mas o que eu tenho mais medo é do retrocesso. Uma cambada de políticos que maltratam o país e pode ocorrer um retrocesso gigante. A luta do marinheiro é a nossa luta.