Sem vontade, de má vontade, chateada

Sem vontade, de má vontade, chateada

Não é segredo para ninguém (que tenha um cérebro), que esta pandemia está mexendo com o ânimo, a cabeça e com a vida de milhões de pessoas em todo o mundo. Mas aqui no Brasil eu creio que isso está passando dos limites. Não sendo o bastante lidar com o medo de uma doença para a qual já existe vacina, com a morte de meio milhão de pessoas e todo o problema da nossa falta de infraestrutura, ainda temos que lidar com a psicopatia de alguns setores de governo e a inércia (na verdade a cumplicidade) de outros.

Todos os dias recebo um número incrível de telefonemas e e-mails com petições online, convocação de tuitaços, pedidos de ajuda para pessoas que não têm casa, comida, trabalho, estão morrendo de covid e outras doenças, estão tendo suas terras e vidas roubadas. Tento ajudar na medida do meu possível, mas são muitos e, como eu, estão desesperançados.

Nos últimos três dias tive de dizer não a instituições que ajudei em outros tempos, porque neste momento não consigo ajudar nem a mim mesma. São muitos obstáculos para viver neste Brasil e além de ter que contornar ou pular essas barreiras, ainda tenho que explicar o tempo todo que estou em busca de trabalho, que o trabalho é que anda me recusando.

Consigo uns “expedientes” aqui e acolá, pagando menos que um salário mínimo por um trabalho que valeria ao menos uns quatro salários. E até nesses tenho que aturar as pessoas que não sabem o que querem e ficam empatando o meu tempo sem pagar por ele. Melhor ainda ser chamada de vagabunda, porque mesmo que eu tenha meu dia ocupado, não consigo tirar nem mesmo para pagar as contas de todo mês. As palavras: “corre atrás” estão me tirando do sério.

Voltando às instituições e petições, assino, tuito, participo, porque se eu não o fizer, me sinto mesmo uma inútil. Porque é assim que me sinto. Cada rejeição de um trabalho, cada vez que vejo uma lei imoral passar no Congresso; cada vez que vejo a “contagem de corpos”, me sinto inútil. Fico me perguntando se tudo o que está acontecendo não é por culpa minha.

É claro que isso é loucura, e que obviamente a minha sanidade mental está afetada por acontecimentos além da minha competência. Mas isso não me consola. Porquê?  Deve ser por causa do amontoado de bobagens que leio, ouço e tento provar para quem diz que as pessoas precisam voltar a interpretar texto antes de opinar. Que a opinião delas vale, mas só se for acompanhada de fatos, e que não existe pior corrupção do que aquela em que o único projeto é a matança e a destruição em massa.

Como convencer um mané que não estamos sendo invadidos por “marcianos esquerdistas” e que não tem mamadeira de piroca a não ser na cabeça de gente pervertida? Como mostrar que a destruição de empregos não vai fazer nenhum país se desenvolver e que isso é só para causar mais destruição? Como convencer as pessoas a não serem cúmplices de um crime contra a humanidade? Que os preconceitos delas, a longo prazo, são mais perniciosos do que tudo o que elas “acreditam como verdadeiro, mas não comprovam com fatos”?

No final da Segunda Guerra Mundial, diante do negacionismo de muitos cidadãos que aderiram ao nazi-fascismo, os aliados fizeram uma espécie de tour obrigatório por campos de prisioneiros e campos de concentração. Milhões de mortos e torturados foram mostrados como prova da máquina do genocídio, iniciado por um fanatismo quase inexplicável. Não é o único exemplo dessa maldade humana. Muitas outras existem ao longo da história e muitas pessoas continuam usando a frase: “não fui eu”, porque se negam a ver a cumplicidade que têm com os acontecimentos e com tudo.

Cada vez que disser que “é assim mesmo”, ou não entender que “meio milhão” não é só um número, pense nisso. E por favor, pare de espalhar notícias que você não tem como comprovar ao vento. Principalmente se você, sem ao menos ler o que diz o tópico, opina com base em nada! Você não está fazendo bem algum, e, pior, pode estar causando um problema que não entende: falta de humanidade.