Tebas: Um herói da superação

Tebas: Um herói da superação

Nem comecei a escrever sobre essa personagem e já me sinto perdida.

Porque há quem diga que ele é uma lenda urbana, mas sei que não.

Há quem diga que ele é branco, afinal, como um negro teria tanto talento?

Por favor, não me venham dizer que não é racismo afirmar essas coisas.

A verdade é que vira e mexe as elites emasculadas fazem qualquer coisa para apagar da história pessoas e fatos.

Especialmente um negro que ganhou sua alforria graças à própria genialidade.

Tebas, o arquiteto escravo existiu.

Viveu; respirou; criou e procriou. Foi pai de obras e de filhos.

Foi marido e um trabalhador talentoso e dedicado.

Suas obras, as que não foram destruídas, persistem nas igrejas mais antigas do centro velho de São Paulo.

O Arquiteto Tebas pode ser visto na igreja da Ordem Terceira do Carmo; no frontão do conjunto arquitetônico do Largo de São Francisco; em partes do Mosteiro de São Bento e, dizem, em alguns canos enterrados entre o Anhangabaú e a Sé.

Os canos, que abasteciam o chafariz da Misericórdia, no largo de mesmo nome, foram talvez o primeiro sistema de fornecimento de água na região central.

Seu nome era Joaquim Pinto de Oliveira. Seu apelido (Tebas) era uma expressão idiomática.

Era como dizer que o cara sabia fazer de tudo. E Tebas sabia.

Durante minhas pesquisas eu vi de tudo, até mesmo uma maneira de dizer que o Tebas apenas trouxe um aprendizado inerente aos africanos e indígenas.

Pode até ser, mas isso não pode diminuir um gênio.

Com livros lançados e homenagens feitas até pelo Google, as informações sobre a vida e obra têm aparecido todos os dias.

No livro “Tebas – Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata”, organizado por Abílio Ferreira (org.), Carlos Gutierrez Cerqueira, Emma Young, Ramatis Jacino, Maurílio Chiaretti, lançado em comemoração aos 300 anos do arquiteto escravo, descobrimos que Joaquim nasceu em 1721, em Santos, litoral sul de São Paulo.

Escravizado pelo português Bento de Oliveira Lima, célebre mestre de obras da região, o artesão cresceu em área com abundância em pedras e recebeu influências metropolitanas, como o barroco, que influenciou Aleijadinho, em Minas Gerais, Tebas em São Paulo e outros grandes nomes do barroco paulista. Tornou-se entalhador.

Um gênio em vida e morte

Bento Lima, que era mestre de obras, percebeu que seu escravo seria rentável em uma cidade como São Paulo, que começava a crescer e receber obras pagas pelas ordens religiosas.

Surgiu o Tebas construtor, que ergueu a torre da antiga Sé, terminada em 1778, quando recebe a alforria, concedida pelo arcebispo.

Tebas continuaria no oficio até sua morte, em 1811, aos 90 anos. O mestre arquiteto, entalhador foi vítima de gangrena, provavelmente causada por acidente de trabalho.

Seu velório e sepultamento foi realizado na Igreja de São Gonçalo (aqui), onde eram enterrados os “mulatos importantes” da época.

Muita água rolou até esse tricentenário do arquiteto escravizado. E não do Chafariz da misericórdia, desmontado em 1886.

Como eu disse no princípio, tentaram apaga-lo dizendo que era uma lenda.

O gênio negro

Mas, assim como tento fazer agora, muitos querem a verdade.

E a verdade é que, mesmo que algumas de suas obras não existam mais, ele está aqui.

Por sorte, cada vez que algum pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) colocava um tombamento em análise, apareciam documentos que gritavam: “Ele Existe!”.

Foi assim no caso da igreja do Carmo, cuja obra iniciou em 1632 e cuja única parte restante da Ordem dos Carmelitas, é a igreja terminada por Tebas, sob contrato assinado entre o arquiteto e os frades.

Em todas as buscas feitas, que provaram muitas obras saídas do gênio de Tebas, as fachadas do Carmo e de São Francisco ainda permanecem em pé.

Os documentos encontrados mostram um humano que tinha esposa e filhas; que tinha um endereço; que era brilhante em seu trabalho.

E que nem todo o racismo deste país poderá apagar da história, nunca mais.

Obs. O pdf do livro mencionado pode ser baixado neste link aqui

(fontes: IPHAN; O Estado de São Paulo/Arquivos; Tebas, um arquiteto negro na São Paulo Escravocrata; Arte Fora do Museu)