Vidas negras importam e as irmandades centenárias mostram isso

Vidas negras importam e as irmandades centenárias mostram isso

Não quero me aproveitar de novembro ser o mês da Consciência Negra para levantar lutas e heróis.

Mas eu o farei. Por quê?

Por causa de gente que ainda não entendeu que toda a exclusão causou um mal que não será curado tão cedo.

Precisamos voltar a lutar.

Não é mais possível aguentar as mentes medíocres que falam demais por não ter nada a dizer.

E hoje usarei as centenárias irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos para lutar.

Essas irmandades foram meios de união diante da opressão e da indignidade da escravidão.

A escravidão que ainda existe

Vamos começar com alguns fatos.

Os portugueses invadiram as terras indígenas em 1500 e desde então escravizaram indígenas e africanos.

Por conta de intervenções jesuítas os indígenas foram meio que deixados de lado.

Então criou-se o mito de que eram indolentes. Não são. Nunca foram.

Vamos trazer africanos, disseram os invasores!

E não “trouxemos”. Sequestramos, escravizamos e tratamos gente como se fosse mercadoria.

Então essa situação durou até 1888. Lei Áurea, vocês lembram?

388 anos de servidão que foi terminada com uma canetada burocrática.

Muitos pensam nos “pobrezinhos dos senhores”, que tiveram que começar a pagar funcionários pra lavoura etc.

Mas ninguém pensou nas vítimas verdadeiras, que continuam a ser tratadas como coisas ainda hoje.

Da exclusão nasce a ordem do Rosário dos Pretos

Os africanos trouxeram toda uma cultura e religiosidade da África.

Comidas, danças, práticas religiões, tudo proibido pelo sinhô e a sinhá.

Escravos fizeram de tudo para manter alguma unidade.

Inclusive sincretizar seus orixás com santos católicos.

Mas, muitos se tornaram católicos procurando uma aceitação.

Foi assim que nasceram as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

Os negros não podiam frequentar as mesmas igrejas dos senhores e criaram as suas próprias.

A irmandade de Nossa Senhora do Rosário no Brasil

A primeira Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, berço da irmandade, foi a de Olinda, em Pernambuco.

Ela foi fundada no final do século XVI e sua construção terminou no início do século XVII.

E de lá as irmandades se multiplicaram no país, além das que relacionei abaixo.

1654 – Recife, PE

Meados do século XVII – Rio de Janeiro, RJ

1682 – Belém, PA

1685 – Salvador, BA

1708 – São João Del Rei, MG

1721 – São Paulo, SP

E é sobre esta última que quero falar um pouco mais.

A irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo completou 300 anos em 2021.

Ela ainda é o ponto de encontro e resistência do povo que formou esta nação.

A primeira Igreja do Rosário dos Pretos em São Paulo

A Irmandade paulistana sofreu ao ver sua primeira igreja, na Praça Antônio Prado, construída em 1725 com a arrecadação de doações e esforço dos malungos (irmãos), ser demolida para dar lugar a projetos de urbanização da Província.

Os negros mantiveram algum patrimônio ao redor dessa igreja.

Casas simples serviram para atividades religiosas, acolhimento dos alforriados e a administração da Irmandade, composta de diretoria e mesários.

Hoje a igreja está localizada no largo do Paissandu (aberta em 1906), mas mantém seu calendário com procissões, novenas e rezas do terço.

Para os negros, o objetivo da irmandade era ter um local onde poderiam cultuar livremente.

Era também o local de apoio para um povo que veio à força para esta terra, construída sobre o sangue deles, e ainda excluídos.

A reza, feita com rosários de contas de “Lágrimas de Nossa Senhora”, aliviava os sofrimentos infligidos pelos brancos.

Com seus três séculos de existência, a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos é uma referência para movimentos de consciência negra.

Ela apresenta uma tradição religiosa que remonta aos tempos dos primeiros escravos.

Hoje, esse estilo colonial permanece nas dependências da igreja que, por ser capela, está sob a jurisdição da paróquia de Santa Ifigênia.

No subsolo fica a mesa administrativa, onde os irmãos se encontram para a missa de domingo; confraternização e a distribuição mensal de cestas básicas.

No local há um acervo de pinturas, ilustrações, fotografias, imagens e documentos que trazem à lembrança os primeiros irmãos.

Todo ano há eleição para a diretoria da Irmandade, que exerce as atividades administrativas e pastorais da comunidade.

Também são escolhidos por voto os “festeiros”, o rei e a rainha.

Estes auxiliam a diretoria na organização das festas de Nossa Senhora do Rosário (Outubro) e São Benedito (31 de Março).

No primeiro domingo de outubro, festa do Rosário, a igreja tem missa solene e coroação de Nossa Senhora.

Depois há almoço para a comunidade e irmandades de São Paulo, Santos e Rio de Janeiro.

Então o  povo sai em procissão pelas ruas do centro, cantando.

Nas festividades, as crianças vestem-se de anjos e os irmãos e irmãs carregam os andores dos santos.

O rei e a rainha as coroas, lembrança dos reisados e congadas.

Aliás, mesmo não sendo mais dançadas conforme os costumes, a irmandade resiste.

De apoio dos irmãos escravizados a apoio dos irmãos segregados, a Irmandade resiste.

Há 300 anos, e com a benção de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário.

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