Caminhar por São Paulo

Caminhar por São Paulo

Andar pelas ruas do centro velho de São Paulo é constatar e se entristecer com o abandono

 

Para mostrar aqui mais um pouco de mim, digo ao leitor que gosto de andar pelo centro velho de São Paulo.

Não importa o dia da semana, sempre há algo para ver na cidade.

O passeio que descrevo aqui meio melancolicamente aconteceu em um sábado, nos primeiros meses de um ano.

Eu queria ver como andavam as coisas “sob nova direção”.

Nesta vez resolvi começar pela São Bento.

Aproveitei para dar uma olhada no Mosteiro, cujas obras de restauro, muito divulgadas, deveriam estar terminadas. Mas não… Ainda falta muito.

A estação do metrô, onde antes havia lojas, restaurantes, movimento, arte, está vazia.

Nem mesmo as bancas de revistas e os Hare Krishnas estão no local.

No largo de São Bento, olho para os arredores, a Florêncio de Abreu efervescente de pessoas em busca de ferramentas ou de uma descida mais para o centro da Rua 25 de Março.

O viaduto Santa Ifigênia tomado por ambulantes e sem teto, numa desordem só admitida nesta louca cidade.

Mas hoje não é dia de comprar aviamentos, ferramentas nem eletrônicos.

É dia de andar pela minha cidade natal e ver o centro que eu tanto amo.

 

Caminho pela Rua São Bento em direção à Praça Patriarca, e vejo uma região, antes cheia de lojas movimentadas e pessoas andando para lá e para cá, com portas fechadas.

Alguns lugares transformados em estacionamentos improvisados, outros servindo de abrigo aos moradores de rua e às pessoas sem eira nem beira.

É quando me dou conta que não é o lugar que está abandonado. São as Pessoas.

Chego à Praça do Patriarca e vejo uma feira, ou quermesse, improvisada, com barracas de quitutes e bebidas.

Não bastasse a marquise horrorosa, o evento ajuda a tampar a paisagem local, inclusive a Igreja de Santo Antônio.

Essa igreja setecentista é um dos últimos e mais belos exemplares do Barroco Paulista. Mas está com as portas fechadas devido à tal feira.

Entristeço-me, porque ia passar para dar uma olhada e fazer uma prece.

Mas não há prece que resolva aquele batalhão de miseráveis pelo caminho, à procura de saciar uma fome que nem deveria existir mais…

 

Onde estão o progresso e o futuro prometidos?

Continuo até o largo de São Francisco, com menos gente abandonada, e as calçadas da faculdade são uma mistura de gosma de cerveja seca pelo sol causticante e a sujeira vinda de poeira trazida de todas as partes.

Entro na Igreja de São Francisco, mas o alarido dos visitantes fazendo turismo no local torna impossível qualquer meditação.

Saio e entro na igreja das Chagas (obra do Mulato Tebas).

Sento e aprecio aquele belo exemplar colonial e suas paredes de taipa.

Na saída converso alguns momentos com um pedinte inusitado, que não está procurando dinheiro, mas pergunta por trabalho.

É caseiro, ele me diz, e procura algum lugar que precise de seus serviços, como milhões de pessoas neste país, ele ficou de escanteio na hora de decidir os rumos econômicos.

Despeço-me e vou em direção à Praça João Mendes andar mais um pouco e, quem sabe (?), garimpar um pouco nos sebos da região.



Nada me chama a atenção para leitura, exceto o grande número de pessoas dentro do Sebo do Messias, muitos ainda à busca de livros didáticos.

Mas, o que mais chama a atenção, é que este é o primeiro local onde a vida ainda faz a cidade respirar. Vejo gente!

Vou comer algo na Padaria Santa Teresa (funcionando desde 1872!), com seus belos salões e fotos antigas nas paredes.

Saio em direção ao bairro da Liberdade, como muitos condenados saíam do Largo da cadeia em direção ao Largo da Forca.

Novamente muitas barracas espalhadas sem ordem, vendendo um artesanato que nem passa perto de ser oriental.

 

Barracas de bebidas e comidas tampam tudo. Até a entrada da Igreja de Santa Cruz dos Enforcados, também fechada.



No bairro, além de um sem número de sebos, onde pessoas ávidas por leitura, como eu, encontram desde os livros mais comuns até os mais raros.

Aqui na Liberdade pode-se comprar desde cosméticos na Ikesaki, até entrar pelas pequenas galerias de lojinhas que vendem de tudo.

Também se acha alimentos não encontráveis em outras partes, como cogumelos de diversos tipos, alguns vegetais usados na culinária oriental, refrigerantes e bebidas importados, panelas, louças e muito mais.

 

Cansada da multidão (antes da Pandemia), resolvo entrar no metrô e voltar para casa.



Tive que driblar a manifestação inusitada de veganos, com rostos cobertos por máscaras de animais.

Eles protestam para ouvidos surdos e bocas cheias de porco chop suey e tempurás de camarão, ou por um “soba” de todas as carnes.

Fujo da bagunça e entro na estação em direção ao Jabaquara.

Percebo o trem parado e ouço no áudio: “estamos aguardando instruções para seguir viagem.

Devido a uma falha na São Bento, os trens estão com velocidade reduzida e maior tempo de parada”.

Cheguei duas horas depois em Piraporinha…

Observação: propositalmente utilizei fotos antigas (essa Ikesaki é a primeira de uma cadeia de lojas).

Talvez para lembrar o tempo em que a cidade era mais gentil e as pessoas menos esbaforidas.

Também para destacar que esta cidade louca tem história, tradição (montes de sebos) e coisas que precisam ser preservadas!

 

 


Uma resposta para “Caminhar por São Paulo”

  1. Nossa, faltou só falar do nosso Mappin, com uma foto das suas seções…mas isso nem era desse século kkk
    Pior a Florêncio morreu, não tem mais as lojas de ferramentas e saudades da Ferimpex, entre outras…
    O Largo São Bento é o que mais dó dá!
    Pensar que ali comprei um sorvete para minha namorada, e que virou esposa…
    Hoje, nem bilhete do Metro se vende por lá…
    Um lixo…que já foi um luxo